Domingo no campo
- 19 de jun. de 2017
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Domingo, na roça, é dia especial. Se na cidade as pessoas almoçam na casa da avó e esperam acabar o jogo na televisão para ir embora, no campo a história é outra. Ou era, nos tempos que não tinha luz.
Por aqui, almoçava-se mais cedo, lá pelas 11 horas, pra dar tempo de chegar à capela ao meio dia. Passados os compromissos religiosos, o povo descia proseando para o campinho de várzea. Os jogadores faziam das moitas de bambus seus vestiários, e os torcedores transformavam os barrancos em arquibancadas.
Mas não pense que todo esse desarranjo na estrutura quisesse dizer que o jogo era improvisado. Pelo contrário, na roça as regras eram seguidas ao pé da letra. E os vinte e dois jogadores eram de fazer inveja aos profissionais.

Jogadores do time de Povoado dos Pintos, em Resende Costa - MG. (FOTO: Acervo de Gérson Resende)
O meio da tarde marcava o início da partida. Posicionados e uniformizados, ainda que sem chuteiras, os jogadores se encaravam. Os times eram formados por vizinhos do povoado, que se dividiam entre amigos e inimigos. Os jogos não valiam troféu ou prêmio, mas os vencedores podiam conquistar, além do prestígio, o coração de uma garota.
As meninas podiam não entrar em campo, mas não tinha jogo na roça sem presença feminina. Elas eram as torcedoras mais fervorosas. Sorte tinha o jogador que contava com uma madrinha para lhe vestir a camisa antes da partida.
Com a bola rolando, os homens que já tinham passado da idade de jogar ou eram meio perna de pau aproveitavam para fazer negócio, vendendo pastéis e canudos. Mas os gritos dos comerciantes tinha que se sobrepor ao das mulheres, que, do barranco, gritavam instruções para os homens em campo. E funcionava. Jogador da roça chegava a marcar dez gols em uma partida.
O juiz também tinha que ficar atento, porque era cada falta do arco da velha. Até pular nas costas do outro jogador pulavam, se isso fosse impedir o gol. E se o resultado não agradasse, a briga depois da partida era certa.
O sol começava a se por e as pessoas, aos poucos, voltavam para suas casas. Era hora de ordenhar as vacas, colocar as galinhas no galinheiro, tomar banho e ir pra reza, na casa de um compadre, já pensando no jogo seguinte. Trabalhar, rezar, jogar, domingo no campo é assim.

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